Memórias do Futuro

Oficina de Projeto por Cenários para o Movimento Protagonistas do Futuro (Santa Maria-RS)

* Projeto de Tese de Doutorado em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Design e Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Orientador: Prof. Dr. Airton Cattani

Em um contexto onde todos projetam, designers especialistas e difusos (MANZINI, 2015) têm participado ativamente dos processos de projeto, de transformação e de descoberta na sociedade contemporânea. Além de resolver problemas aprimorando os significados existentes, uma rede de projeto também pode exercitar estratégias para cocriar contextos alternativos ao futuro visando inovações dirigidas pelos processos de design.

Especificamente neste recorte, esta pesquisa visou a proposição e a aplicação de uma “Tecnologia de Projeto por Cenários” a partir de uma ampla revisão da literatura tecendo relações entre design, cenários e inovação. Em termos processuais, considerou-se uma disrupção entre problema e solução durante o espaço-tempo do projeto com o objetivo de investigar possiblidades de inovação dirigidas pelos próprias equipes. Desse modo o estímulo projetual foi dado pela dimensão temporal deslocando a equipe para um futuro próximo e voltando em retrospectiva: o que aconteceu neste contexto durante este intervalo de tempo?

Diretrizes teóricas da Tecnologia para Projetar por Cenários

A Tecnologia de Projeto por Cenários proposta nesta pesquisa considera uma prática dinâmica, social e iterativa que atravessa todo o tempo do processo de projeto. Desse modo, um conjunto de sistemas foi disponibilizado para habilitar a construção colaborativa de “artefatos do futuro” promovendo uma experiência imersiva: um sistema de navegação entre as dimensões do contexto (bússola), um sistema de construção (conjunto de técnicas e instrumentos) e um sistema de compartilhamento (mostra de cenários). 

Esses sistemas foram construídos com um conjunto de técnicas e de instrumentos disponíveis na literatura e já utilizados neste campo disciplinar* para pensar o projeto de acordo com os preceitos do Design Participativo, aquele que considera a narrativa, a interação e a visualização (SANDERS, 2013). 

* Sugere-se que as técnicas já disponíveis na literatura possam ser combinadas e/ou recombinadas de acordo com as necessidades específicas de cada projeto e que não sejam entendidas como exclusivas dentro da tecnologia proposta. 

Sistema de Navegação e Sistema de Construção
Se pensarmos em projetar através de cenários podemos observar que, sob o ponto de vista teórico-prático, a maneira de agir/operar/executar esta atividade poderia compreender múltiplos sistemas indissociáveis, abertos e passíveis de retroalimentação em uma concepção decididamente não linear de tempo (MORIN, 2011). Trata-se de experimentar um estado de fluxo contínuo e iterativo entre diversos tipos de cenários já identificados, projetando ciclos retrospectivos (feedback loopings) em constante evolução entre o presente e o futuro.

Sobre a aplicação da tecnologia, esta pesquisa pode contar com a participação uma ampla rede de atores em uma oficina de projeto intitulada “Memórias do Futuro”. Essa oficina ocorreu juntamente com o lançamento do Movimento “Protagonistas do Futuro”: um projeto de desenvolvimento urbano colaborativo para cidade de Santa Maria – RS, criado pela Agência de Desenvolvimento de Santa Maria (ADESM) com o apoio do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat). Durante a oficina, os protagonistas cocriaram o movimento em si deslocando-se em direção ao futuro para investigar quais seriam as possibilidades de atuação e de desenvolvimento durante o ano seguinte.

Nesta vivência, a cocriação de memórias do futuro através da tecnologia de projeto por cenários atuou como uma aceleradora de processos possibilitando visões inesperadas em quatro dimensões:

  • ATORES: Quem está envolvido nessa história? Explora as características, os comportamentos e as atitudes que representem as pessoas ou os grupos envolvidos com a organização. É importante considerar que os atores carregam as suas emoções, os seus valores e os sentimentos para o contexto do projeto que está sendo construído.
  • TRAMA: Qual é a história/narrativa da organização? Conta a história propriamente dita, contemplando a narrativa, o encadeamento e as interações entre os elementos. É preciso construir, desenvolver e adaptar os elementos vivenciados (no presente ou no futuro) pelos atores de acordo com uma sequência temporal (início, meio e fim). Sugere-se pensar o projeto de modo retrospectivo, uma que vez o gatilho inicial lança as equipes para um futuro próximo.
  • TRAJETÓRIA: O que acontece ao longo do tempo? Incorpora o tempo para deslocar o projeto em direção ao futuro. Nesta dimensão, pelo menos duas trajetórias são fundamentais: a jornada das pessoas envolvidas com a organização e a jornada da própria organização considerando todos os processos internos.
  • EVIDÊNCIAS: Quais são os impactos dessa experiência? Busca mapear todas as evidências tangíveis entre a organização e o contexto em que está inserida. Dessa forma torna-se fundamental construir um mapa com todas as evidências que o serviço/experiência de uma determinada organização pode proporcionar para as pessoas avaliando os respectivos impactos.

Todas as histórias antecipadas pelos atores nesta oficina de projeto por cenários foram compiladas em uma narrativa-síntese construída com o sistema bidimensional SAP Scenes.

Em relação aos resultados dessa experiência, podemos apontar que a construção colaborativa de possibilidades proporcionou a aquisição de uma “memória futura” compartilhada entre os atores envolvidos no projeto. Assim, o conhecimento sobre os processos a serem empreendidos pelo movimento foi otimizado dentro da rede, estimulando um senso coletivo de protagonismo e de responsabilidade entre os participantes:

“Essa dinâmica fez cada um se envolver tanto que já estamos sonhando com as coisas realizadas” (PROTAGONISTAS, 2019).  

A construção de histórias multidimensionais (dimensão da trama) atuou como um mecanismo de produção de sentido na aquisição de memórias e emoções vividas. Cabe destacar que o processo de construção de cenários pode incorporar o conhecimento tácito, aquele que é carregado de ideais, emoções e valores, sendo mais difícil de formalizar em palavras, números ou sons. 

 “Esse projeto significou ressurgir para mim, estamos sentados com gente jovem projetando um futuro” (PROTAGONISTAS, 2019). 
“A gente vê que todo mundo se incluiu de alguma forma nessa experiência (...) vocês não têm noção do sentimento que a gente tem com essa união de forças” (PROTAGONISTAS, 2019). 

Em relação a trajetória a ser percorrida no projeto, a oficina proporcionou uma simulação sobre os desafios a serem enfrentados pela rede durante o percurso. Isso porque a aquisição de memórias (episódicas ou semânticas) pode interferir em nossa maneira de perceber o mundo e em nossas decisões (IZQUIERDO, 2018). 

“Na minha cabeça isso que fizemos aqui hoje é um filme que já estava pronto. Isso mostrou que a nossa capacidade não tem limites e não me permitiu acomodação” (PROTAGONISTAS, 2019). 

Palavras-chave:cenários, design participativo, inovação dirigida pelo design, metodologia de projeto.

CRÉDITOS . Memórias do futuro

Agradecimentos especiais à Agência de Desenvolvimento de Santa Maria (ADESM) pela oportunidade de pesquisa e ação junto ao movimento Protagonistas do Futuro com apoio da ONU-Habitat e do Santa Maria Tecnoparque. Também agradecemos os participantes da Oficina Memórias do Futuro pela disponibilidade e motivação: ANA NORA; ARIANE SILVA JARDIM; CELITA DA SILVA; DAIANE RABELO; ELISA PINHEIRO; GENI ALVES; JAQUELINE S. C. CUNHA; JOELSON DA SILVA; JONAS SANGOI; JONATAN CAMARGO; LUCAS DA SILVA COSTA; LUCIANA SCHORN; NEWTON ROBERTO; PAULO LEMOS; RAFAEL BARBOSA; UBIRATAN DOS SANTOS; VALDOINO MACHADO.

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